8# ARTES E ESPETCULOS 5.2.14

     8#1 PREO DURO
     8#2 VEJA RECOMENDA
     8#3 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#4 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  ROLEZINHO EM LISBOA

8#1 PREO DURO
Filmar em Hollywood com 140 milhes de dlares e sob a presso de um grande estdio no  para qualquer um. Mas o Jos Padilha de Tropa de Elite , sim, o homem certo para enfrentar essa mquina.
ISABELA BOSCOV, DE LOS ANGELES

Quem achou este filme ruim?"
Ningum levantou a mo.
"Quem achou este filme bom?"
Nenhuma mo levantada.
"timo? Excelente?"
Todas as mos no ar.
     Nesse dia de 2013, o da primeira exibio de RoboCop para uma plateia-teste, o cineasta brasileiro Jos Padilha ganhou pelo voto direto o direito de dizer que o filme que estreia nos Estados Unidos em 12 de fevereiro e no Brasil uma semana depois, na sexta-feira 21,  seu do comeo ao fim, sem tirar nem pr. No  um filme que um estdio de Hollywood imaginou. Tambm no  um filme que os produtores tenham guiado. No  nem sequer um filme no qual essas duas entidades, o estdio e os produtores, tenham interferido (embora tenham tentado com grande nimo, claro). RoboCop  Padilha do comeo ao fim. Nasceu, de estalo, durante uma reunio genrica do carioca com a direo do estdio MGM. "Voc quer fazer Hrcules?", perguntaram os executivos. No, Padilha no tinha o menor interesse em fazer Hrcules. "E que tal Os Sete Samurais?" No, obrigado. "Agora, aquilo l sim eu quero fazer", arriscou o diretor, apontando para um cartaz de RoboCop na parede da sala de reunies. 
     O primeiro RoboCop, que o holands Paul Verhoeven dirigiu em 1987,  uma das tiradas mais satricas, audaciosas e contundentes sobre o estado de coisas americano que Hollywood jamais patrocinara: na ultraviolenta Detroit do futuro, com a criminalidade fora de controle, o policial Alex Murphy  assassinado e ento revivido como o agente da lei do ttulo, um ser meio humano meio ciberntico criado pela corporao OCP e usado como arma implacvel pela polcia. Revolucionrio a seu tempo e eletrizante ainda hoje, o RoboCop de Verhoeven foi um dos primeiros produtos da cultura pop a anunciar a reverso do ufanismo e do jingosmo da era Reagan. Mas, como provaram as duas fraqussimas continuaes de 1990 e 1993 (sem a participao de Verhoeven), era uma criatura nica e irreplicvel. Qual seria a ideia de Padilha, ento, para um novo RoboCop, perguntaram os curiosos  e algo clicos  executivos da MGM? Simples, improvisou o brasileiro: est-se em 2028, e no mais  preciso ter algum pilotando um drone: os autmatos tomam suas prprias decises, seja em situaes de policiamento, seja em zonas de interveno militar. Na cena que abre o filme de Padilha, robs humanoides e os pesadssimos ED-209 criados por Verhoeven patrulham ostensivamente Teer. "As-salaam alaikum (a paz esteja convosco)  saiam com as mos para cima", ordenam os ciborgues, que revistam homens, mulheres e crianas enquanto uma reprter de TV festeja a maneira como a populao local "abraou" a ocupao. S o que se v entre os iranianos, claro, so olhares de dio  mas o ncora que o ator Samuel L. Jackson calca em figuras exuberantes da direita como Bill O'Reilly e Rush Limbaugh pergunta  audincia: "E por que s aqui no se pode poupar a vida de policiais e de militares dessa forma? Por que a Amrica, afinal,  to robofbica?", encerra ele, triunfalmente. Eis o eixo em torno do qual se desenvolve o enredo de Padilha: os americanos rejeitam a ideia de que um autmato possa decidir sobre a vida de um ser humano, e apenas nos Estados Unidos seu uso  proibido. A OmniCorp, a corporao que os produz, est assim impedida de se expandir no maior mercado do mundo. Mas quem sabe, pensa o CEO da OmniCorp (Michael Keaton, numa excelente personificao de Steve Jobs), a populao mude de ideia se dentro do autmato houver um homem?  no caso, o policial Alex Murphy, ferido e mutilado em um atentado. 
     Embora Padilha no soubesse disso, reviver RoboCop sempre estivera nos planos da MGM. Quando aquela reunio aconteceu, mais de trs anos atrs, o diretor Darren Aronofsky (de Cisne Negro) acabara, na verdade, de desistir de uma refilmagem. Ser que Padilha gostaria de aproveitar o roteiro dele? No, obrigado de novo, declinou o brasileiro, que escolheu como roteirista Joshua Zetumer e trabalhou com ele passo a passo no desenvolvimento de seu argumento. De cara, levou-o para o Rio de Janeiro. "Assim como  importante para o Flamengo jogar no Maracan, levei-o para o Rio porque era importante para mim desenvolver o filme no meu estdio  a minha produtora. Era importante ele ver de onde eu vim, assistir aos meus filmes, ficar meu amigo, ler os livros de filosofia da mente que eu leio, virar meu cmplice." 
     RoboCop ganhou oramento de 140 milhes de dlares  cumprido  risca, assim como os prazos. Vez ou outra, para desconcerto dos produtores, a filmagem chegava a terminar mais cedo, l pelas 3 da tarde, com todas as cenas do dia "na lata", como se diz. Para no atrasar o cronograma, tambm, Padilha enfrentou um ms de suplicio: decidiu ficar  base de antibiticos e adiar uma cirurgia urgente para remediar uma diverticulite. S depois de encerrado o trabalho foi ao encontro do bisturi, com o qual deixou um bom pedao do seu intestino. Ajudou-o, e muito, o fato de que os produtores com que colaborou no lhe foram impostos pelo estdio, mas escolhidos a dedo por ele mesmo. E ajudou-o mais ainda a companhia de profissionais de muita competncia e amizade em postos-chave: Lula Carvalho como diretor de fotografia, Daniel Rezende na montagem (em parceria com Peter McNulty, de O Mestre) e Pedro Bromfman na trilha sonora. "RoboCop no  o meu primeiro filme americano.  o primeiro filme brasileiro de Hollywood", brinca ele. 
     Fosse Padilha espanhol, dinamarqus ou mesmo americano, tal controle sobre a equipe seria igualmente incomum. No se trata de uma questo de provenincia: trata-se de uma questo de cacife. A MGM convidou Padilha para aquele encontro inicial por fora da bilheteria de Tropa de Elite 2  O Inimigo Agora  Outro, que rendeu mais de 63 milhes de dlares mesmo sem quase nada ter ganhado no mercado americano (no qual foi lanado em mseras sete salas). A indstria de cinema vive de olho em nmeros, e esses lhe chamaram a ateno. Fora isso, o que Padilha tinha, objetivamente, era prestgio crtico, por conta do documentrio nibus 174 e do primeiro Tropa de Elite. Mas tinha tambm, e isso seus parceiros americanos logo viriam a descobrir, quantidades inesgotveis de viso, determinao, autoconfiana e obstinao, A contratao de Daniel Rezende nem foi to difcil, graas ao seu crdito como montador de Cidade de Deus e  indicao ao Oscar que recebeu. J a de Lula Carvalho foi objeto de hesitao e resistncia. Padilha transformou-a em fato consumado ao levar Carvalho para uma reunio e apresent-lo aos executivos da Sony-MGM como "o seu diretor de fotografia de RoboCop". "A ningum podia mais dizer que no", ri Padilha, lembrando da sada atrevida. O estilo de guerrilha do diretor rapidamente conquistou a adeso da equipe e do elenco. Padilha faz todos participarem de tudo e, se fala bastante, ouve em igual medida. "Quando meu agente me falou de RoboCop, recusei. Mas, quando soube que o diretor era o Padilha, voltei atrs na hora.  brincadeira, poder trabalhar com o cara de nibus 174 e Tropa de Elite?", diz Joel Kinnaman, da srie The Killing, que entrega uma belssima atuao como Alex Murphy e acompanhava o trabalho do brasileiro desde quando ainda morava na sua Sucia natal. Padilha fez Kinnaman vestir a armadura de RoboCop na raa, em vez de t-la digitalmente aplicada. Quando a filmagem comeou, no vero trrido da canadense Toronto, ele perdeu 7 quilos na primeira semana dentro do seu "caveiro" particular. Quando o inverno frigido da cidade chegou, em compensao, ele era a nica pessoa mais ou menos confortvel no set. 
     Nos anos seguintes ao seu "sim"  Sony-MGM (a mesma composio que produz os filmes de James Bond), Padilha se chocaria inmeras vezes de frente com o estdio e os produtores executivos  leia-se, o pessoal do dinheiro. "A tenso  grande mesmo, e est l o tempo todo. Por um lado, eles querem, com razo, proteger o altssimo investimento deles. Por outro, eu quero garantir, tambm com razo, que o filme que eu concebi  o filme que ser visto." Altercaes, telefones batidos, rompimentos e reatamentos, trocas de concesses, resistncia pacfica e at um tantinho de duplicidade (fingir que aceitou fazer de um jeito e, na hora H, ir l e seguir o prprio nariz, por exemplo): Padilha usou todo tipo de ttica, mas sobretudo manteve a atitude que desde aquela primeira reunio rendera os melhores frutos. Primeiro, a atitude de independncia. "Estou em uma posio privilegiada: tenho uma carreira muito ativa no Brasil, e nunca quis fazer um filme nos Estados Unidos s para dizer que fiz. Se eles no quisessem do meu jeito, eu no faria e pronto. J se eu dependesse deste projeto para seguir carreira... A  provvel que eu pensasse duas vezes antes de peitar os caras como peitei." 
     Contrato assinado, prevaleceu, junto  independncia, aquela atitude de "eu sei o que estou fazendo", que  irresistvel nas pessoas que, sim, de fato sabem o que esto fazendo. Padilha forneceu as provas de sua competncia voluntariamente,  medida que as tinha em mos: cada cena que ele filmava, Rezende j tratava de montar e mostrar ao estdio, para acalmar os nimos. "E tambm para o pessoal ir se acostumando com o filme. Seno, iria ser um choque para eles, e a coisa no iria funcionar." A ideia era mesmo arriscar. "Os filmes de ao americanos esto cada vez mais parecidos entre si e genricos. A televiso, no entanto, est arrebentando com sries complicadas e difceis como The Wire ou Breaking Bad, e encontrou uma audincia para elas. Sou contra subestimar a inteligncia do pblico, e no serei eu a faz-lo." 
     No se trata de retrica. Uma das qualidades de Padilha  que ele  o mesmo  animado, paciente, extremamente disciplinado com suas obrigaes  num escritoriozinho da Vila Madalena, falando de Garapa, seu documentrio sobre a fome no Nordeste, ou num hotel de Beverly Hills, discorrendo sobre seu RoboCop repleto de ao e de efeitos especiais. Por temperamento ou por princpio, tambm, ele no reclama nem remi. Quando Tropa de Elite foi visto por 15 milhes de brasileiros em DVDs piratas e o ento ministro da Cultura, Gilberto Gil, enxergou algo de democrtico nesse tipo de ilegalidade, Padilha falou objetiva e francamente contra o crime que isso constitui, mas no chorou as pitangas. Em Tropa de Elite 2, no entanto, cortou o mal pela raiz, assumindo controle total do projeto: montou um fundo de investimentos privado para bancar a produo do filme e tambm sua distribuio  j que, graas s inconsistncias legislativas brasileiras, essa  a ponta do negcio que menos risco corre e mais dinheiro ganha. Os rendimentos foram repassados aos investidores via auditoria: nem um fotograma sequer do filme vazou para a pirataria; e Tropa de Elite 2 bateu todos os recordes de bilheteria no pas. 
     Analisar as causas e razes de um problema e atac-las antes que esse problema ganhe existncia  um dos benefcios do raciocnio metdico que Padilha, fsico de formao e de esprito, aplica a todas as instncias de sua atividade profissional. "Os dois fatores determinantes em qualquer filme so o roteiro e o diretor. Entrei em RoboCop pelo roteiro e fiquei pelo diretor", diz o ingls Gary Oldman  soberbo no papel do cientista que transforma Alex Murphy em mquina. "Padilha  um desses raros cineastas que tm um ponto de vista e algo a dizer. De pronto, debate qualquer questo tica, filosfica ou mdica que voc tenha  com brilhantismo, e numa lngua que no  a dele", maravilha-se Oldman. 
     No momento, fiel aos ditames do mtodo cientfico que tanto preza, Padilha recusa formular qualquer prognstico sobre a recepo crtica ou popular a RoboCop. As projees de bilheteria so excelentes. A nota que o filme ganhou naquela primeira exibio-teste foi altssima: 82 sobre 100. Mas o diretor no quer contar com os ovos antes de eles serem postos, nem traar panoramas hipotticos no caso de o filme ir mal ou ir bem. Tem vrios projetos em andamento nos Estados Unidos (pelo menos dois longas e uma srie que est "quase fechando" com o Netflix). E tem tambm vrios outros em curso no Brasil. Pretende retomar um roteiro sobre o mensalo  luz das guinadas espetaculares do julgamento do ano passado. Quer investigar, em documentrio, por que  to alto o nmero de pessoas desaparecidas a cada ano no Rio de Janeiro  ou, em outras palavras, quer descobrir que tipos de m conduta essa estatstica pode estar maquiando. Pensa montar um fundo privado para produzir e distribuir um pacote de cinco filmes e provar assim que o cinema  uma atividade vivel do ponto de vista do lucro do produtor no Brasil, mesmo sem recorrer s leis de incentivo (as quais considera em boa medida necessrias, mas tortas na maneira como esto hoje dispostas). Est em dvida, portanto (ou diz estar), sobre onde viver nos prximos anos, se no Brasil ou nos Estados Unidos. "O Brasil  uma barbrie. Na minha ltima ida, fiquei com a ntida sensao de que estamos num barril de plvora. Mas amo o Brasil, e no desisto dele", diz. Por outro lado, admite que h seu charme em viver numa cidade como Los Angeles ou Toronto e mandar o filho de 10 anos  escola sem temor de que algo de ruim possa acontecer a ele. Por isso  cautelosamente evasivo sobre o endereo ("alugado; nunca comprei um imvel") em que mora quando est no Rio de Janeiro, ou sobre qual o cach  excelente,  bvio  que ganhou por RoboCop: como muitos brasileiros dos quais se suspeita alguma afluncia ou notoriedade, j foi alvo de uma tentativa de sequestro. Eis como Padilha contorna o assunto: "O Seu Jorge est morando aqui em Los Angeles, e algum perguntou a ele se no iria voltar para o Brasil. 'Pois , mas aqui tem aquela aguinha filtrada, n?', respondeu o Seu Jorge". 
     Assim como os dois Tropa, o RoboCop de Padilha prope um raciocnio que, at um certo ponto, faz sentido ou ao menos parece justificvel. O Capito Nascimento de Wagner Moura usa de fora excessiva movido pelo desespero legtimo de combater tanto a criminalidade como a corrupo policial, males reais e destrutivos do tecido social. O CEO interpretado por Michael Keaton argumenta, com propriedade, que  moralmente inaceitvel desperdiar vidas que poderiam ser poupadas caso se usassem robs no lugar de soldados ou de policiais. A questo com que a plateia se tem de ver, nos Tropa e em RoboCop,  a das consequncias ltimas desses raciocnios: Nascimento acredita que a sua violncia  um mal menor em face da violncia que quer combater; e a OmniCorp acha aceitvel desumanizar progressivamente Alex Murphy/RoboCop para que ele cumpra a funo a que se destina. "A histria prova vez aps vez que a mecanizao e a desumanizao da violncia  essa remoo da conscincia dos indivduos  so as portas pelas quais se entra num cenrio potencial de fascismo", argumenta Padilha. "Essa , para ficar no exemplo bvio, a maneira como o nazismo se instalou na Alemanha no sculo passado." H outra faceta ainda dessa questo que interessa ao diretor: a da responsabilidade e culpabilidade. "Por que os americanos tiveram de sair do Vietn? Em grande parte devido  presso popular, porque soldados americanos estavam morrendo. O mesmo no Iraque. Mas, se um dos lados da guerra tira da equao os soldados de carne e osso e os substitui por autmatos, o que se tem  um desequilbrio incontornvel de foras. Alm disso, pode-se julgar um soldado por uma morte injusta. Mas e se quem a provoca  um rob, a quem se vai atribuir a culpa? Ao software? Ao fabricante? Ao Exrcito?" 
     Naturalmente, esse contedo ostensivamente poltico e as indagaes relativas  filosofia da mente  uma de suas disciplinas favoritas  de que Padilha carregou RoboCop enchiam o estdio de apreenso. Tendo j usado de todas as artimanhas de que  capaz  e no so poucas  para garantir que filmaria exatamente o que desejava filmar, o diretor e seus montadores concentraram seu poder de fogo na etapa seguinte e decisiva. Conforme as regras da associao americana de diretores (DGA), o cineasta tem o direito a fazer o primeiro corte de seu filme sozinho, e de mostr-lo ento para uma plateia-teste, cujas reaes sero tabuladas pelos marqueteiros. "Em Hollywood,  a que o diretor ganha ou perde o controle do filme", explica Padilha  que decidiu levar a esse primeiro preview a melhor verso possvel de seu filme, e tambm a mais adequada ao lanamento comercial. Resultado: nem sequer houve um segundo preview. O RoboCop que est indo para os cinemas  aquele que Padilha mostrou para a primeira plateia-teste. No jargo da indstria, diz-se que o diretor ficou com o "corte final"  um privilgio do qual s gente muito grada costuma usufruir. Duas novas cenas,  verdade, foram rodadas aps aquele primeiro preview. Uma, por deciso do prprio Padilha, que achou que havia um je ne sais quoi faltando numa sequncia decisiva; e um desfecho diferente do programado pelo estdio, que concordou que o final proposto pelo diretor ficaria melhor. Ou seja: a exibio-teste deixou RoboCop ainda mais prximo da concepo de seu criador, e no mais distante, como  o habitual. Padilha admite que filmar em Hollvwood foi um teste duro. Mas reconhece tambm que aprendeu muito. E no pediu para sair. Agora, por outro lado, est assim de gente pedindo para entrar na sua tropa de elite. 

ELE ENCARA 
O carioca Jos Padilha com a armadura usada por Joel Kinnaman em RoboCop: desde a primeira reunio com a MGM, h trs anos, na qual tomou a iniciativa de propor o projeto, ele persistiu na atitude de independncia e provou, na prtica, que no seu set de filmagem era ele quem tinha de dar as cartas.

A MQUINA HUMANA
O policial Alex Murphy (Kinnaman) desperta, no laboratrio de Gary Oldman, de sua transformao em ser ciberntico: uma reflexo sobre a relao desigual de fora entre homens e mquinas e o potencial totalitrio que ela contm (exemplificado pela cena da ocupao de Teer.), e tambm um questionamento do que, afinal, faz de um homem um homem  esta uma questo premente para a mulher de Alex, interpretada pela australiana Abbie Cornish.

QUESTO DE LGICA 
O RoboCop, j com a armadura preta que seus fabricantes consideram mais atraente para o pblico, entra em ao pela primeira vez: usar autmatos em vez de perder vidas  brilhante, claro  mas o que fazer quando os princpios da tica e da moral comeam a ser suprimidos. 

O CAVEIRO DO FUTURO
* A armadura do novo RoboCop tem cerca de 1,98 metro de altura: 1,90 do ator Joel Kinnaman e os 8 centmetros restantes acrescentados pelos sapatos e pelo capacete
* Feita de borracha e de plstico como o usado em para-choques de automveis, ela  relativamente leve: pesa cerca de 20 quilos 
* No primeiro dia, foi preciso quase uma hora para colocar Kinnaman dentro dela. L pelo quinto dia, j se chegara a marca de vinte minutos 
* Kinnaman passava at doze horas por dia dentro da armadura, e saa dolorido por causa da maneira como ela limitava seus movimentos e forava sua postura 
* Em dias quentes, era preciso bombear gua fria para um colete sob o torso da armadura entre uma cena e outra: na primeira semana, sem essa providncia, Kinnaman perdeu 7 quilos de tanto transpirar 
* Usaram-se vrias placas mveis para compor a armadura. Elas foram sendo trocadas  medida que o RoboCop ia sendo alvejado e perfurado por seus inimigos 
* Na histria, o policial Alex Murphy foi dramaticamente amputado para a sua transformao ciberntica. Embora Kinnaman seja bastante magro, a circunferncia da cintura foi retocada com computao grfica, para ficar mais fina do que seria possvel em um homem com o corpo intacto 
* Alm desta armadura usada por Kinnaman, foram construdas outras duas, mais articuladas e flexveis, para os dubles de ao 
* O RoboCop de 2014  bem mais gil que o de 1987, mas manteve-se a essncia mecnica de seus movimentos - que ainda tm aquele inconfundvel rudo hidrulico 
* No, a armadura no  preta em homenagem  farda do Bope carioca. "Essa  a cor usada no uniforme da maioria das polcias tticas. Fizemos como provavelmente seria feito no mundo real", explica Padilha.

A OUTRA TROPA DE ELITE 
Padilha observa uma cena no monitor com um de seus produtores, Marc Abraham.  direila, Michael Keaton como o executivo decalcado de Steve Jobs que bola a ideia de colocar um homem dentro da mquina; e, ao lado, Samuel L. Jackson como o ncora de uma emissora muito parecida com a Fox News nas suas inclinaes polticas (leia-se, bastante  direita), que defende a entrada dos autmatos nos Estados Unidos: dos postos mais altos da equipe de produo aos atores, todo mundo escolhido a dedo pelo prprio diretor.
O BRASIL URBANO, SEGUNDO PADILHA,...
Wagner Moura pe um deputado literalmente a nocaute em Tropa de Elite 2,  esquerda, e uma das cenas de alta voltagem que fizeram nibus 174 correr o mundo: comeando com o documentrio e prosseguindo com os dois Tropa, uma disseco da violncia no Brasil nas esferas da criminalidade, da polcia e da poltica. 

...E O SEU BRASIL PROFUNDO
O documentrio Segredos da Tribo, acima, analisa a perverso da cincia por meio da relao dos antroplogos com os ndios ianommis, enquanto Garapa,  esquerda, destrincha os mecanismos da fome e da misria no Nordeste: como documentarista ou diretor de fico, sempre uma viso sistmica das razes pelas quais as mazelas nacionais se perpetuam.


8#2 VEJA RECOMENDA

TELEVISO 
ORPHAN BLACK (ESTREIA NESTA QUARTA-FEIRA, S 23h, NA BBC HD, DISPONVEL A PARTIR DE QUINTA-FEIRA NO NETFLIX)
 rf que vive de pequenos golpes nas ruas, Sarah Manning (Tatiana Maslany) acha que pode se dar bem quando testemunha o suicdio de uma mulher que aparenta ser sua ssia. Ela assume a identidade da morta, que era investigadora de polcia. Mas, enquanto rebola para manter a farsa de p, Sarah descobre que ela e a mulher morta so clones. Ao desenterrar suas prprias origens e as razes que levaram a policial ao desespero, a protagonista desta excelente srie de fico cientfica constata que o buraco  mais fundo do que imaginava: ambas pertencem a uma linhagem de no apenas dois, mas pelo menos dez clones. E esse nem  o maior problema: no se sabe quem as criou, nem o propsito da experincia  ou por qual motivo algum (talvez at uma das cpias) est tentando eliminar todas as Sarahs. Produzida pelo canal canadense Space e pela BBC America, Orphan Black injeta frescor  to batida temtica da clonagem. O show  todo de Tatiana: a atriz, indicada ao Globo de Ouro deste ano, d conta com brio de interpretar vrias figuras com personalidades distintas, mas que guardam semelhanas sutis em sua essncia.

LIVRO
MICHAEL KOHLHAAS, DE HEINRICH VON KLEIST (TRADUO DE MARCELO BACKES; CIVILIZAO BRASILEIRA; 176 PGINAS; 35 REAIS)
 Em um dia qualquer do sculo XVI, o comerciante alemo de cavalos Michael Kohlhaas segue a caminho de uma feira quando depara com um entrave burocrtico: precisa de um salvo-conduto para atravessar a fronteira do condado vizinho. Na falta do documento, acaba deixando dois cavalos como garantia no castelo do nobre que governa o territrio. Ao voltar, alm de encontrar os animais doentes, no consegue recuper-los e  humilhado pelos homens do fidalgo Von Tronka. A partir de ento, estabelece-se uma disputa cada vez mais intrincada e absurda: de um lado o comerciante, que deseja justia; do outro, uma aristocracia cruel e sem escrpulos. Kohlhaas se toma um guerreiro rebelde, recorrendo inclusive a aes criminosas para atingir seus objetivos. A breve parbola de Von Kleist (1777-1811) tem o clima de pesadelo macabro do homem comum devorado pelas engrenagens de uma sociedade gananciosa e indiferente. No  toa, este clssico alemo tem a fama de ter sido o livro favorito do checo Franz Kafka.

DVDs
HANNAH ARENDT (ALEMANHA/FRANA/
LUXEMBURGO, 2012. EUROPA FILMES)
 Em 1960, o servio secreto israelense sequestrou Adolf Eichmann, na Argentina, e o levou para ser julgado em Israel por seu papel capital na conduo do genocdio judaico durante a II Guerra Mundial. A filsofa alem  e judia  Hannah Arendt (1906-1975), ento radicada nos Estados Unidos, viajou no ano seguinte para Jerusalm, onde acompanhou o julgamento do oficial nazista. Dessa experincia surgiu Eichmann em Jerusalm, obra em que a filsofa apresenta a controversa ideia da "banalidade do mal": Eichmann no seria exatamente um antissemita raivoso, mas apenas um funcionrio medocre que, nos limites estreitos de sua funo, organizou, com diligncia, a indstria da morte do holocausto. Com Barbara Sukowa afiadssima no papel-ttulo, o filme de Margarethe von Trotta apresenta Hannah Arendt no perodo em que escreveu essa obra. E examina o ataque a que ela foi submetida por suas ideias  e pela exposio da cumplicidade de certas lideranas judaicas com o nazismo. O filme  um elogio candente a uma qualidade rara: a independncia intelectual. 

MAMMA ROMA (ITLIA, 1962. VERSTIL)
 O estilo rido e direto do neorrealismo, movimento surgido na Itlia no fim da II Guerra Mundial, j havia sado de moda quando o diretor Pier Paolo Pasolini (1922-1975) rodou este melodrama que segue as pegadas dos mestres do gnero, Roberto Rossellini e Vittorio De Sica. Mamma Roma (Anna Magnani)  a voluptuosa prostituta envelhecida que decide sair da marginalidade para criar o filho adolescente (Ettore Garofolo) na esperana de que ele consiga escapar das agruras da misria e da criminalidade. Porm, o passado sempre d um jeito de reaparecer para assombr-la, seja atravs de seus antigos clientes, seja na descoberta de que o garoto anda envolvido com uma jovem a quem explora como um gigol juvenil. Foi um escndalo  sua poca. A Igreja Catlica e o governo italiano classificaram a obra como obscena, enquanto os companheiros polticos do diretor, que era militante de esquerda, viram a perversa imobilidade social dos personagens como uma confirmao dos piores preconceitos burgueses. Revisto hoje, Mamma Roma continua intenso, vigoroso e provocador. Isto , fiel  obra posterior de Pasolini, criador de Teorema e Sal ou os 120 Dias de Sodoma.

DISCO
ARY BARROSO: BRASIL BRASILEIRO (NOVODISC/MUSEU DA IMAGEM E DO SOM)
 Esta luxuosa caixa, com vinte CDs,  resultado da dedicao do professor de biologia e pesquisador paulistano Omar Jubran. Por mais de uma dcada, ele saiu em busca das gravaes originais das 321 canes de Ary Barroso. Encontrou 316  acredita que as cinco que faltam jamais foram gravadas. Jubran tambm cuidou do processo de remasterizao. Ary Barroso: Brasil Brasileiro rene msicas compostas entre 1928 e 1962 e interpretadas por, entre outros, Mrio Reis, Slvio Caldas, Araci Cortes e Linda Batista. Entre as preciosidades, Folha Morta, uma das raras canes do compositor mineiro gravadas por Dalva de Oliveira. Famoso por Aquarela do Brasil (aquela do inacreditvel "coqueiro que d coco"), Barroso foi da msica interiorana ao samba, do choro ao foxtrote. Criou clssicos que hoje deixariam arrepiados os politicamente correios, como D Nela e Negra Tambm  Gente. A caixa ainda traz curiosidades como um jingle usado na campanha de Jnio Quadros  Presidncia (Jnio! Jnio! Jnio!). 


8#3 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- A Menina que Roubava Livros. Markus Zusak. INTRNSECA
3- A Redeno de Gabriel. Sylvain Reynard. ARQUEIRO 
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
5- O Teorema de Katherine. John Green INTRNSECA 
6- Fim. Fernanda Torres. COMPANHIA DAS LETRAS 
7- Quem  Voc, Alasca? John Green. MARTINS FONTES 
8- Inferno. Dan Brown. ARQUEIRO 
9- O Lado Bom da Vida. Matthew Quick. INTRNSECA 
10- Pea-Me o que Quiser ou Deixe-Me

NO FICO
1- Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA
2- Demi Lovato  365 Dias do Ano. Demi Lovato. BEST SELLER
3- Assassinato de Reputaes. Romeu Tuma Jr. TOPBOOKS 
4- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO 
5- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA
6- Eu Sou Malala. Malala  Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS 
7- Operao Banqueiro: as Provas Secretas do Caso Satiagraha. Rubens Valente. GERAO EDITORIAL 
8- Um Gato de Rua Chamado Bob. James Bowen. NOVO CONCEITO
9- Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL
10- O Mundo pelos Olhos de Bob. James Bowen. NOVO CONCEITO

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA
2- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM 
3- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA 
4- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
5- Foco. Daniel Goleman. OBJETIVA
6- O que Realmente Importa? Anderson Cavalcante. SEXTANTE 
7- Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL 
8- O Encontro Inesperado. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
9- O Mtodo Dukan - Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER 
10- Quem Me Roubou de Mim? Fbio de Melo. PLANETA


8#4 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  ROLEZINHO EM LISBOA
     Da comitiva da presidente Dilma acomodada nos melhores hotis de Lisboa ao apartamento com aluguel de 54.000 dlares ao ms ocupado pelo embaixador Guilherme Patriota em Nova York, o Brasil oficial continua a dar shows de embasbacar os gringos. Aqui dentro se incendeiam nibus, caminho com a caamba erguida derruba passarela de pedestre, a polcia d tiro em manifestante que a ameaa com estilete e, para completar os temores do turista que se apresta a vir para a Copa do Mundo, h at o caso, num bairro de Campinas (SP), em que esses santos propugnadores da paz, da concrdia e da comunicao entre os homens, que so os carteiros, precisam da companhia de um segurana para bem cumprir seu trabalho. J l fora, ah!, l brilhamos. 
     O caso de Dilma  intrigante. O Palcio do Planalto escondeu que, entre os compromissos oficiais na Sua e em Cuba, a presidente e sua portentosa comitiva fariam escala de algumas horas em Portugal. Quando a reportagem do jornal O Estado de S. Paulo flagrou a brasileirada em Lisboa, o chanceler Luiz Alberto Figueiredo explicou (ou foi constrangido a explicar) que se tratou de deciso de ltima hora, tomada no prprio dia da partida. Os mesmos reprteres do Estado  apuraram, no entanto, que desde dois dias antes o governo portugus fora avisado da passagem da presidente brasileira e havia sido feita a reserva no premiado restaurante onde Dilma jantaria. Ao segredo se juntava a mentira, e sobravam duas indagaes. Primeira: por que o segredo? Segunda: como foi possvel guard-lo, entre os cinquenta e tantos membros da comitiva? 
     Nas tentativas de resposta, tateia-se entre conjeturas. Estaria programada uma grande farra em Portugal, entre um compromisso e outro? No, Dilma no  disso. Teria a presidente encontro com autoridades portuguesas, ou de terceiro pas, para cujo sucesso o sigilo seria vital? No, no se vislumbra na poltica externa brasileira item que levasse a tal necessidade. Quereria ela esconder que jantaria no Eleven, restaurante com recomendao do Guia Michelin e soberba vista para o Tejo? Ora, se Dilma e acompanhantes pagaram eles prprios a conta, cada um a sua parte, como a presidente houve por bem esclarecer de viva voz, porque escond-lo? Ou quereria ocultar que a comitiva ocuparia 45 quartos dos nobres hotis Ritz e Tivoli? Ora, para a missa inaugural do papa Francisco ela tambm se tez acompanhar de numerosa comitiva, hospedou-se no hotel Westin Excelsior Roma (que se apresenta como "um cone da dolce vita"), e no viu razo para ocult-lo. Por que o faria agora? 
     Sobraria que a presidente, notria motoqueira nas noites de Braslia, fosse possuda daquele prazer secreto das pequenas transgresses, tanto mais saborosas quando cometidas sob o risco de ser descobertas, mas... No, no fica bem ao colunista meter-se a intrprete da alma alheia, muito menos da alma presidencial. Voltamos  estaca zero  e nela ficamos, desamparados e impotentes. Quanto a manter o segredo entre to numerosa comitiva, imagina-se que a informao tenha sido repassada com o mximo cuidado. "Vamos para Portugal, mas no conta para ningum." "Para Portugal?" "Psiu, fala baixo." Alguns teriam sido informados s j a bordo do avio. "Por que Portugal?" "No sei, a chefa no explicou.'' "Onde ficaremos hospedados?" "No Ritz." "Oba!" 
     No caso do embaixador Guilherme Patriota, por sinal irmo do ex-chanceler Antnio Patriota, que por sinal  seu chefe na misso brasileira junto s Naes Unidas, a justificativa-padro para o soberbo imvel alugado pelo Itamaraty para seu usufruto  que os representantes brasileiros se devem apresentar condignamente no exterior. Patriota 2, segundo apurou a Folha de S.Paulo, tem como vizinhos de bairro Woody Allen, Madonna, Bono e Al Pacino. Que faz o representante de um pas remediado, cujo desafio atual  manter-se acima da linha d'gua que separa os emergentes dos que submergem, em tal companhia? Em vez do pretendido respeito que o endereo possa inspirar,  mais provvel que ocorra o contrrio. 
     No foi Dilma quem inventou as luxuriantes viagens, acompanhada por portentosas comitivas, umas e outras de fazer inveja a ditadores africanos, nem foi Patriota quem introduziu entre os diplomatas brasileiros o hbito de escolher endereos de pasmar um astro do rock. Isso no os isenta de culpa. Antes a agravam, pelo pecado da reiterao. Poupemo-nos de repisar a cantilena do mau uso dos recursos pblicos. Se ao menos eles se tocassem para o ridculo de tais situaes... No se tocam. 


